Análise
Um texto que circula em inglês e português diz que Egito e Jordânia se recusam a receber palestinos porque antigos hóspedes palestinos 'se voltaram contra seus anfitriões' e tentaram golpes: na Jordânia em 1970, além do Líbano, do Kuwait e do Egito. A alegação mistura história documentada, rótulos contestados e um salto causal. Veja cada país separadamente.
O que está sendo afirmado
As versões analisadas são a tradução de um texto do Newsrael, "Uma breve história da traição palestina", e um artigo de opinião do Epoch Times, de Patricia Adams e Lawrence Solomon, republicado no Substack. Juntos dizem que Arafat tentou derrubar o rei da Jordânia em 1970 (com 25 mil mortos), que palestinos tentaram derrubar o governo libanês em 1976 e que palestinos apoiaram a invasão iraquiana do Kuwait em 1990 e foram expulsos. O artigo acrescenta que governos árabes veem os palestinos como 'ameaças existenciais'. Nenhum dos dois descreve tentativa de golpe no Egito, embora o artigo cite temores egípcios de segurança em relação a Gaza.
O que as evidências mostram
Jordânia, 1970. O relato da Wikipedia mostra fedayin armados operando um 'Estado dentro do Estado'. Em 1970, FPLP e FDLP pediam abertamente a queda da monarquia, e os sequestros de aviões da FPLP em Dawson's Field levaram o rei Hussein a mandar o Exército agir. A Síria chegou a invadir por pouco tempo. Mas o Fatah, principal facção da OLP, defendia a não interferência em países árabes, e havia jordanianos e palestinos dos dois lados. A Wikipedia em português traz estimativas de 3 mil a mais de 5 mil mortos nos dez dias, com fontes palestinas e Arafat citando números bem maiores. Os '25 mil' são, portanto, o extremo de uma faixa partidária. Chamar de 'tentativa de golpe' é questão de definição: algumas facções buscavam a queda do rei, mas a OLP como um todo não anunciou esse plano. A Jordânia também deu cidadania aos palestinos da Cisjordânia e, segundo a Wikipedia, é o único país árabe a integrar plenamente os refugiados de 1948.
Líbano, anos 1970. A OLP de fato montou um Estado dentro do Estado ('Fatahland'), a partir de acordos que países árabes pressionaram o Líbano a assinar, e foi parte da guerra civil iniciada em 1975. Nossas fontes não dizem que palestinos tentaram derrubar o governo libanês, e nenhuma trata de Damour, então não conseguimos avaliar essa parte.
Kuwait, 1990-91. O Kuwait foi invadido pelo Iraque; não houve golpe. A parte documentada é que a liderança da OLP ficou do lado de Saddam, e o Kuwait expulsou a maior parte dos cerca de 357 mil palestinos; Abbas pediu desculpas em 2004. A carta do Kuwait à ONU, de 1991, acusa combatentes ligados à OLP e alguns residentes de colaboração e nega que alguém tenha sido expulso; é a versão de uma das partes. A colaboração individual é alegada, enquanto a punição coletiva de uma população é outra coisa.
Egito. Não encontramos tentativa de golpe palestina no Egito. A Wikipedia registra tratamento igual sob Nasser e restrições depois de 1978, após Camp David e um assassinato cometido por militantes do Abu Nidal. Um tribunal egípcio em 2013 ligou Hamas e Hezbollah à Irmandade Muçulmana na fuga de presos de 2011, o que alguns presos contestam. A frase do artigo de que o Hamas 'tomou o poder no Egito' confunde Hamas com a Irmandade Muçulmana.
O que Cairo e Amã dizem. A cobertura da AP na PBS e na VOA registra os motivos: temor de que Israel queira expulsão permanente e anular a demanda por um Estado, falta de garantia de retorno, o Hamas no Sinai, o tratado de paz de 1979 e, no caso do Egito, a economia. Nenhum cita os episódios do passado. A fronteira Egito–Gaza é rigidamente controlada, não selada: a Autoridade Palestina estimou que 115 mil moradores de Gaza cruzaram durante a guerra.
Como os veículos cobriram
O texto do Newsrael e o artigo do Epoch Times são peças de opinião engajada. Comprimem conflitos diferentes numa história de traições repetidas, usam linguagem carregada e não citam fontes para os números. O Newsrael diz ainda que dezenas de milhares foram expulsos para a Tunísia depois de 1970; a Wikipedia situa a ida da OLP para a Tunísia após a invasão israelense de 1982. O explicativo da AP, publicado por PBS e VOA, se apoia em autoridades e analistas e liga as recusas ao medo do deslocamento e à segurança. Os verbetes da Wikipedia são resumos, não prova primária, e a carta kuwaitiana é o relato do próprio governo.
O que ainda não sabemos
Não dá para dizer quanto a memória de 1970 ou do Kuwait pesa nos bastidores em Cairo ou Amã; nas nossas fontes, as autoridades não disseram isso publicamente. O material também não esclarece o episódio de Damour, os números de mortos de 1970 nem por que exatamente o termo 'golpe' é aplicado a certos eventos. Antes de publicar, convém consultar histórias acadêmicas de cada caso.
Fontes
- TradicionalBlack SeptemberWikipedia (EN)Relato detalhado; algumas facções buscavam a queda do rei, outras não
- TradicionalPalestinians in JordanWikipedia (EN)Jordânia naturalizou a maioria dos refugiados palestinos
- TradicionalPalestinians in EgyptWikipedia (EN)Direitos restringidos após 1978; sem menção a golpe
- TradicionalEgypt–Gaza borderWikipedia (EN)Fronteira controlada, Rafah como única passagem, zona-tampão por segurança
- TradicionalExpulsion of Palestinians from Kuwait (1990–91)Wikipedia (EN)Expulsão apresentada como resposta à posição da OLP; Abbas pediu desculpas em 2004
- TradicionalPalestinian insurgency in South LebanonWikipedia (EN)Estado dentro do Estado da OLP e guerra civil; tom em parte unilateral
- TradicionalWadi el-Natrun PrisonWikipedia (EN)Tribunal egípcio ligou Hamas e Hezbollah à fuga de 2011; contestado
- TradicionalSetembro NegroWikipedia (PT)Relato de 1970 com faixa de estimativas de mortos
- TradicionalWhy Egypt and other Arab nations are hesitant to take in Palestinian refugeesPBS NewsHour (AP)Explica as recusas por medo de expulsão, Hamas e segurança
- TradicionalWhy Egypt, other Arab countries are unwilling to take refugees from GazaVoice of America (AP)Mesmo explicativo da AP: medo de deslocamento, sem direito de retorno, segurança no Sinai
- OficialLetter dated 24 June 1991 from the Permanent Representative of Kuwait to the United Nations addressed to the Secretary-GeneralUN (UNISPAL)Versão do governo kuwaitiano acusando combatentes ligados à OLP e alguns residentes de colaboração
- AlternativaUma breve história da traição palestinaNewsrael (via Substack)Opinião engajada; apresenta episódios como traições palestinas repetidas
- AlternativaWhy No Arab Government Wants GazaEpoch Times (via Substack)Artigo de opinião que afirma que Estados árabes veem palestinos como ameaça existencial
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