CASO #0021 · ABERTO EM 3 DE NOV. · ATUALIZADO ONTEM

Egito e Jordânia barram palestinos por causa de 'golpes' do passado? O que o registro mostra

Setembro Negro, Líbano e Kuwait são história real, mas 'tentativa de golpe' é um rótulo contestado, nossas fontes não mostram golpe no Egito, e os motivos que Cairo e Amã apresentam hoje são outros.

Quadro de evidências

  • ContestadoEm 1970, os fedayin/OLP palestinos tentaram derrubar o rei Hussein da Jordânia (Setembro Negro).5 / 13 fontes

    Parte está documentada: facções radicais da OLP (FPLP, FDLP) pediram abertamente a queda da monarquia, grupos armados operavam um 'Estado dentro do Estado' e os sequestros de aviões da FPLP em Dawson's Field levaram o Exército à ofensiva. Mas o Fatah, principal grupo da OLP, defendia oficialmente a não interferência em países árabes, e a Wikipedia lembra que havia jordanianos e palestinos nos dois lados. Foi o Exército jordaniano que lançou a ofensiva de setembro. Chamar tudo de 'tentativa de golpe palestina' comprime uma disputa de poder entre um Estado e facções armadas em um só rótulo. Serve para os objetivos declarados de algumas facções, não como descrição de um povo.

  • ContestadoO Exército jordaniano matou cerca de 25 mil palestinos em 1970.2 / 13 fontes

    A Wikipedia em português cita estimativas de 3 mil a mais de 5 mil mortos nos dez dias, o número jordaniano de 3,4 mil, fontes palestinas com 10 mil e a afirmação posterior de Arafat de até 20 mil a 25 mil. Os 25 mil estão no topo da estimativa mais alta e partidária, mas o texto do Newsrael os apresenta como fato.

  • Sem evidênciasNo Líbano, em 1976, os palestinos tentaram derrubar o governo e massacraram civis em Damour.3 / 13 fontes

    Nossas fontes documentam que a OLP montou um 'Estado dentro do Estado' no Líbano, que a pressão árabe levou ao Acordo do Cairo de 1969 e que a OLP se tornou parte da guerra civil de 1975-90 ao lado de grupos de esquerda contra milícias cristãs, com a Síria mudando de lado. Nenhuma diz que os palestinos tentaram derrubar o governo libanês, e nenhuma menciona Damour, então essa parte não pode ser avaliada com este material. O próprio verbete da Wikipedia sobre a insurgência é unilateral em alguns trechos e deve ser conferido com fontes acadêmicas.

  • VerdadeiroA liderança da OLP ficou ao lado do Iraque de Saddam Hussein durante a invasão do Kuwait em 1990.4 / 13 fontes

    A Wikipedia, citando o Washington Post, diz que Arafat pressionou Saddam a condicionar a retirada a retiradas israelenses, e em dezembro de 2004 Mahmoud Abbas pediu desculpas ao Kuwait pela posição da liderança palestina. A carta do Kuwait à ONU em 1991 acusa combatentes ligados à OLP de ajudar as forças iraquianas. Essa carta vem de uma parte na disputa.

  • ContestadoOs palestinos no Kuwait, como grupo, apoiaram a ocupação, e por isso a expulsão em massa foi resposta a uma 'traição' ou golpe.4 / 13 fontes

    O Kuwait foi invadido e ocupado pelo Iraque, então não houve tentativa de golpe por moradores. O governo kuwaitiano diz que alguns residentes, incluindo algumas dezenas dos 160 mil jordanianos, colaboraram e foram julgados, e que a maioria dos residentes de origem palestina tinha passaporte jordaniano. A Wikipedia registra que mais de 287 mil palestinos foram forçados a sair em março de 1991, que muitos já haviam fugido antes por medo e que a política kuwaitiana respondeu à posição da OLP. A carta do Kuwait diz que ninguém queria sair. A colaboração individual e o alinhamento da liderança estão documentados. A culpa coletiva de uma população é enquadramento, não constatação. Palestinos voltaram a viver no Kuwait (cerca de 80 mil em 2012) e as relações foram reatadas.

  • Sem evidênciasOs palestinos tentaram um golpe no Egito.4 / 13 fontes

    Nenhuma fonte que reunimos descreve uma tentativa de golpe palestina no Egito. Os episódios documentados são outros. A Wikipedia diz que os palestinos tinham status igual ao dos egípcios sob Nasser até 1978, quando Camp David e o assassinato de um ministro da Cultura por militantes do Abu Nidal levaram a tratá-los como estrangeiros. Um tribunal egípcio disse em 2013 que Hamas e Hezbollah ajudaram a Irmandade Muçulmana a organizar a fuga de presos de 2011, o que alguns presos contestam. A AP diz que o Egito já acusou o Hamas de apoiar militantes no Sinai. São incidentes específicos envolvendo grupos militantes, não um golpe.

  • Sem evidênciasEgito e Jordânia fecham as fronteiras hoje por causa desses episódios do passado.3 / 13 fontes

    A reportagem da AP, publicada por PBS e VOA, cita os dois governos dando outras razões, e nenhuma menciona 1970 ou o Kuwait: temor de que Israel busque expulsão permanente e o fim da demanda por um Estado, ausência de garantia de retorno, Hamas e militantes no Sinai, o tratado de paz de 1979 e, no caso do Egito, grave crise econômica. O artigo do Epoch Times fala em histórico de 'derramamento de sangue' e desconfiança, mas não cita nenhuma autoridade. Avaliações de analistas sobre motivações são interpretação. Episódios de segurança do passado podem pesar na cautela, mas nossas fontes não os mostram como motivo declarado.

  • VerdadeiroJordânia e Egito recusaram publicamente receber moradores de Gaza, citando temor de deslocamento permanente, segurança e estabilidade regional.2 / 13 fontes

    A AP, via PBS e VOA, relata a frase do rei Abdullah II 'Nenhum refugiado na Jordânia, nenhum refugiado no Egito' e o alerta do presidente el-Sissi de que um êxodo em massa visa 'eliminar a causa palestina' e poderia transformar o Sinai em base de ataques a Israel. A já grande população palestina da Jordânia e a pressão econômica e de refugiados no Egito aparecem como contexto. Isso reflete posições oficiais de outubro de 2023.

  • ContestadoOs países árabes nunca acolheram palestinos e mantêm as fronteiras seladas.5 / 13 fontes

    A Jordânia concedeu cidadania aos palestinos da Cisjordânia em 1950 e, segundo a Wikipedia, é o único país árabe a integrar plenamente os refugiados de 1948. Os refugiados registrados lá somam cerca de 2,18 milhões (2016). O Egito, em regra, nunca naturalizou refugiados palestinos e restringe seus direitos desde 1978. A fronteira Egito–Gaza é controlada, com Rafah como única passagem, aberta apenas a pessoas. O Egito apoia o bloqueio desde 2007. Ainda assim, a Autoridade Palestina estimou que ao menos 115 mil moradores de Gaza entraram no Egito durante a guerra atual. 'Selada' é exagero para o Egito, e 'nunca acolheu' é errado para a Jordânia.

Análise

Um texto que circula em inglês e português diz que Egito e Jordânia se recusam a receber palestinos porque antigos hóspedes palestinos 'se voltaram contra seus anfitriões' e tentaram golpes: na Jordânia em 1970, além do Líbano, do Kuwait e do Egito. A alegação mistura história documentada, rótulos contestados e um salto causal. Veja cada país separadamente.

O que está sendo afirmado

As versões analisadas são a tradução de um texto do Newsrael, "Uma breve história da traição palestina", e um artigo de opinião do Epoch Times, de Patricia Adams e Lawrence Solomon, republicado no Substack. Juntos dizem que Arafat tentou derrubar o rei da Jordânia em 1970 (com 25 mil mortos), que palestinos tentaram derrubar o governo libanês em 1976 e que palestinos apoiaram a invasão iraquiana do Kuwait em 1990 e foram expulsos. O artigo acrescenta que governos árabes veem os palestinos como 'ameaças existenciais'. Nenhum dos dois descreve tentativa de golpe no Egito, embora o artigo cite temores egípcios de segurança em relação a Gaza.

O que as evidências mostram

Jordânia, 1970. O relato da Wikipedia mostra fedayin armados operando um 'Estado dentro do Estado'. Em 1970, FPLP e FDLP pediam abertamente a queda da monarquia, e os sequestros de aviões da FPLP em Dawson's Field levaram o rei Hussein a mandar o Exército agir. A Síria chegou a invadir por pouco tempo. Mas o Fatah, principal facção da OLP, defendia a não interferência em países árabes, e havia jordanianos e palestinos dos dois lados. A Wikipedia em português traz estimativas de 3 mil a mais de 5 mil mortos nos dez dias, com fontes palestinas e Arafat citando números bem maiores. Os '25 mil' são, portanto, o extremo de uma faixa partidária. Chamar de 'tentativa de golpe' é questão de definição: algumas facções buscavam a queda do rei, mas a OLP como um todo não anunciou esse plano. A Jordânia também deu cidadania aos palestinos da Cisjordânia e, segundo a Wikipedia, é o único país árabe a integrar plenamente os refugiados de 1948.

Líbano, anos 1970. A OLP de fato montou um Estado dentro do Estado ('Fatahland'), a partir de acordos que países árabes pressionaram o Líbano a assinar, e foi parte da guerra civil iniciada em 1975. Nossas fontes não dizem que palestinos tentaram derrubar o governo libanês, e nenhuma trata de Damour, então não conseguimos avaliar essa parte.

Kuwait, 1990-91. O Kuwait foi invadido pelo Iraque; não houve golpe. A parte documentada é que a liderança da OLP ficou do lado de Saddam, e o Kuwait expulsou a maior parte dos cerca de 357 mil palestinos; Abbas pediu desculpas em 2004. A carta do Kuwait à ONU, de 1991, acusa combatentes ligados à OLP e alguns residentes de colaboração e nega que alguém tenha sido expulso; é a versão de uma das partes. A colaboração individual é alegada, enquanto a punição coletiva de uma população é outra coisa.

Egito. Não encontramos tentativa de golpe palestina no Egito. A Wikipedia registra tratamento igual sob Nasser e restrições depois de 1978, após Camp David e um assassinato cometido por militantes do Abu Nidal. Um tribunal egípcio em 2013 ligou Hamas e Hezbollah à Irmandade Muçulmana na fuga de presos de 2011, o que alguns presos contestam. A frase do artigo de que o Hamas 'tomou o poder no Egito' confunde Hamas com a Irmandade Muçulmana.

O que Cairo e Amã dizem. A cobertura da AP na PBS e na VOA registra os motivos: temor de que Israel queira expulsão permanente e anular a demanda por um Estado, falta de garantia de retorno, o Hamas no Sinai, o tratado de paz de 1979 e, no caso do Egito, a economia. Nenhum cita os episódios do passado. A fronteira Egito–Gaza é rigidamente controlada, não selada: a Autoridade Palestina estimou que 115 mil moradores de Gaza cruzaram durante a guerra.

Como os veículos cobriram

O texto do Newsrael e o artigo do Epoch Times são peças de opinião engajada. Comprimem conflitos diferentes numa história de traições repetidas, usam linguagem carregada e não citam fontes para os números. O Newsrael diz ainda que dezenas de milhares foram expulsos para a Tunísia depois de 1970; a Wikipedia situa a ida da OLP para a Tunísia após a invasão israelense de 1982. O explicativo da AP, publicado por PBS e VOA, se apoia em autoridades e analistas e liga as recusas ao medo do deslocamento e à segurança. Os verbetes da Wikipedia são resumos, não prova primária, e a carta kuwaitiana é o relato do próprio governo.

O que ainda não sabemos

Não dá para dizer quanto a memória de 1970 ou do Kuwait pesa nos bastidores em Cairo ou Amã; nas nossas fontes, as autoridades não disseram isso publicamente. O material também não esclarece o episódio de Damour, os números de mortos de 1970 nem por que exatamente o termo 'golpe' é aplicado a certos eventos. Antes de publicar, convém consultar histórias acadêmicas de cada caso.

Fontes

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