Análise
A disputa pelo Senado em Michigan em 2026 foi uma das mais observadas das eleições de meio de mandato, e também uma das mais carregadas de boatos. Abdul El-Sayed, democrata e ex-autoridade de saúde pública, derrotou o republicano Mike Rogers. No caminho, circularam afirmações sobre o que El-Sayed pensa e sobre com quem Rogers se relacionava. Este texto separa o que as fontes fornecidas sustentam do que elas não sustentam.
O que está sendo afirmado
Várias alegações atravessaram a campanha:
- Que El-Sayed disse que os EUA "mereceram" o 11 de Setembro. O Snopes diz que a afirmação é repetida com frequência.
- Que ele é "jihadista" e pertence à Irmandade Muçulmana. A Al Jazeera relata que Trump usou repetidamente o rótulo de "jihadista" e repetiu a alegação sobre a Irmandade.
- Que ele "odeia judeus e odeia negros". Vem de uma publicação de Trump na manhã da eleição, citada na mesma reportagem da Al Jazeera.
- Do outro lado, que Rogers é corrupto e que tinha ligações com Jeffrey Epstein. O Snopes atribui essas afirmações a apoiadores de El-Sayed e chama o boato sobre Epstein de enganoso.
O que as evidências mostram
A alegação sobre o 11 de Setembro é a mais clara. O Snopes a inclui entre os "boatos imprecisos" sobre El-Sayed. O trecho a que tivemos acesso é só a introdução de uma coletânea de cinco alegações, e não reproduz as falas originais nem o raciocínio completo. Quem quiser a evidência primária deve consultar a matéria inteira do Snopes.
As alegações sobre a Irmandade Muçulmana e o "jihadista" não têm sustentação no material fornecido. A Al Jazeera chama a acusação sobre a Irmandade de infundada e o rótulo de "jihadista" de acusação sem fundamento, mas é um veículo noticioso, não um checador, e não faz uma refutação detalhada. Nenhuma matéria apresenta provas de uma coisa nem de outra. O mesmo vale para a afirmação de que El-Sayed "odeia" certos grupos: é uma declaração numa rede social, e a Al Jazeera relata que ele foi bem entre eleitores negros de Detroit.
Há uma crítica real e documentada que não deve ser confundida com os boatos. A NPR informa que suas posições sobre Israel, e comentários feitos após um ataque com atropelamento a uma pré-escola de sinagoga na região metropolitana de Detroit, afastaram parte do eleitorado judeu. Ele depois pediu desculpas pelos comentários. A Al Jazeera também relata que ele acusa Israel de genocídio em Gaza. São posições e disputas políticas, distintas das alegações de terrorismo ou ódio.
Do lado de Rogers, as acusações de corrupção e de ligação com Epstein aparecem no Snopes apenas como retórica de apoiadores e um boato "enganoso". O trecho não mostra as provas em nenhum sentido, então deixamos a alegação sobre Epstein como incerta e a de corrupção como sem sustentação com este material.
O resultado em si não está em dúvida. A NPR informa a vitória com base na projeção da Associated Press, e a Al Jazeera confirma. El-Sayed será o primeiro muçulmano no Senado.
Como os veículos cobriram
O Snopes enquadra a disputa como uma em que boatos correram nas duas direções, e os separa sem tomar partido. A Al Jazeera dá mais espaço à retórica anti-muçulmana, e seus títulos destacam que El-Sayed venceu "apesar" dela ou "rejeitando" o ódio. A cobertura inclui vozes de comunidades árabe-americanas e negras de Michigan e cita diretamente as falas de Trump. Também relata o apoio de Haley Stevens a Rogers, citando os gastos da AIPAC e as críticas de El-Sayed a Israel. A NPR é mais neutra e processual. Descreve a campanha como um teste para um candidato antissistema de esquerda num estado pêndulo e registra tanto as críticas de islamofobia quanto as de eleitores judeus. A NPR diz ainda que Rogers endossou algumas das falsas alegações de fraude eleitoral de Trump.
Os veículos divergem sobre o equilíbrio do Senado. Uma matéria da Al Jazeera diz que a vitória de El-Sayed ajuda os democratas a retomar o controle. Outra diz que a vaga já era democrata e, portanto, não altera de forma significativa o equilíbrio. As duas não podem estar totalmente certas, e as matérias fornecidas não resolvem o resultado nacional.
O que ainda não sabemos
Não vimos a análise completa do Snopes, então não sabemos exatamente que evidências ela pesa em cada boato, inclusive o de Epstein. Também não sabemos em que se apoia, se é que se apoia em algo, a acusação de corrupção contra Rogers. As matérias não mostram o quanto os boatos mexeram com o voto, embora a vitória de El-Sayed sugira que não decidiram a eleição. E a maioria do Senado no plano nacional não é esclarecida por essas fontes.
Fontes
- ChecagemAbdul El-Sayed vs. Mike Rogers: 5 claims about Michigan's Senate candidates, examinedSnopesCheca boatos dos dois lados; chama o do 11/9 de impreciso e o de Epstein de enganoso
- TradicionalMichigan US Senate race: Rogers, El-Sayed urge turnout for critical raceAl JazeeraCobertura do dia da eleição, com ênfase nos ataques islamofóbicos e na ruptura com Stevens
- TradicionalDemocrat Abdul El-Sayed defeats Republican Mike Rogers in key Michigan Senate raceNPR NewsCobertura neutra da projeção; registra críticas de eleitores judeus e queixas de islamofobia
- TradicionalAbdul El-Sayed defeats Mike Rogers to win US Senate seat in MichiganAl JazeeraReportagem da vitória; diz que o resultado não altera de forma significativa o equilíbrio do Senado
- TradicionalDemocrat Abdul El-Sayed wins election to US Senate from MichiganAl JazeeraItem curto em vídeo sobre o discurso da vitória
- Tradicional‘Rejecting hate’: Abdul El-Sayed wins Senate seat despite racist attacksAl JazeeraEnquadra a vitória como rejeição ao preconceito anti-muçulmano; vozes de eleitores e da comunidade
Comentários