Análise
Depois do segundo turno que reelegeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, internautas e um deputado de grande projeção compararam a prorrogação do horário de votação no Brasil a uma extensão ocorrida na Venezuela em 2015. A insinuação era de que mais tempo para votar indica fraude e de que Nicolás Maduro teria sido beneficiado. Segundo o Estadão Verifica, o exemplo venezuelano diz o contrário do que se alega.
O que está sendo afirmado
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) disse, em entrevista antes de o resultado ser definido, que a votação foi prorrogada até as 19h na Venezuela em 2015 e que Maduro ganhou. Após a virada de Lula, ele publicou a captura de tela de uma conversa com uma ferramenta de inteligência artificial em que perguntava se a Venezuela já havia ampliado o horário de votação e quem venceu. O Estadão Verifica também encontrou postagens no Facebook e no Instagram que associam as duas prorrogações a fraude. Algumas sugerem que o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), ajudou a campanha petista ao estender a votação por mais duas horas.
O que as evidências mostram
A afirmação central é falsa, segundo o que o Estadão Verifica apresenta. A votação de 6 de dezembro de 2015 foi legislativa, não presidencial. Maduro era presidente desde 2013 e não estava na disputa. A coalizão opositora MUD conquistou 112 cadeiras na Assembleia Nacional, e o PSUV, governista, permaneceu com 55. O texto descreve o resultado como a primeira vitória da oposição desde a chegada de Chávez ao poder.
A prorrogação de fato ocorreu. O órgão eleitoral estendeu o fechamento em uma hora porque ainda havia eleitores na fila às 18h. A reportagem cita notícias da época segundo as quais a MUD rejeitou a medida, e porta-vozes alertaram que ela poderia abrir espaço para pressão sobre eleitores. Mesmo assim, a oposição ganhou. Carolina Pedroso, professora de relações internacionais da Unifesp que estava na Venezuela na época, chama a comparação com o Brasil de "desproporcional" e diz que 2015 mostra a oposição ganhando força.
Sobre o Brasil, a checagem diz que as publicações virais omitem que a campanha de Flávio Bolsonaro também pediu prorrogação ao TSE, primeiro para 17 municípios de São Paulo, Paraná e Santa Catarina atingidos por chuvas fortes, depois para cidades de Minas Gerais e Rio Grande do Sul. O PT recorreu ao STF e ao TSE por causa de problemas no transporte coletivo em cidades como Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro. A extensão valeu só onde a votação não havia terminado às 17h. Cerca de 34,7 mil votos foram registrados depois desse horário, algo como 0,8% da vantagem de 4,4 milhões de Lula.
Como os veículos cobriram
Os dois itens que recebemos são, na prática, um só: a checagem do Estadão Verifica e uma cópia do mesmo texto num agregador, sob a marca Estadão, sem reportagem adicional. Não temos cobertura de veículos que endossem a insinuação de fraude, então as alegações vêm da forma como a checagem descreve as postagens e das declarações de Ferreira. A checagem se apoia em uma especialista acadêmica, em notícias da época e em reportagem do Estadão sobre os pedidos das campanhas. Ela não identifica a fonte do número de 34,7 mil votos.
O que ainda não sabemos
A versão que temos está cortada, inclusive a parte sobre a eleição venezuelana de 2024 e as diferenças de segurança eleitoral entre os países. Não pudemos ler o que o texto diz ali. Também não sabemos o caminho jurídico exato da prorrogação no Brasil, como quem decidiu cada pedido, porque o texto não detalha isso. A matéria não informa se Ferreira respondeu. Nada no material aponta fraude em nenhuma das prorrogações, a de 2015 ou a de 2026, mas temos apenas uma checagem e nenhum dado independente de órgãos eleitorais.
Fontes
- ChecagemVotação de 2015 na Venezuela foi para eleger Assembleia Nacional e teve vitória da oposição a MaduroEstadão VerificaChecagem que rebate a comparação com a Venezuela de 2015
- TradicionalVotação de 2015 na Venezuela foi para eleger Assembleia Nacional e teve vitória da oposição a Maduro - EstadãoEstadãoCópia em agregador da mesma checagem, sem reportagem adicional
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