Análise
Um documento intitulado "Relatório Pericial Independente — Eleições 2026" circula no Instagram e no X, onde uma das versões passou de 712 mil visualizações. Ele afirma que dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelam fraude no 2º turno da eleição presidencial de 2026. A Agência Lupa verificou o material e classificou suas principais alegações como falsas.
O que está sendo afirmado
Segundo a Lupa, o documento faz várias alegações:
- Se fossem considerados apenas os votos computados até as 17h, Flávio Bolsonaro (PL) venceria.
- Entre 1,8 e 2,5 milhões de votos "irregulares" teriam sido registrados na "prorrogação" da votação até as 19h.
- Em São Paulo, 1.571 seções ainda abertas às 19h deram 57,46% a Lula, ao contrário do restante do estado.
- Eleitores liberados pelo mesário sem biometria, com a digitação do ano de nascimento, seriam a maior vulnerabilidade material do processo.
- Os dados de 2026 mostrariam seções quase unânimes concentradas em áreas rurais.
O documento é anônimo. A Lupa o chama de apócrifo, e nada no material analisado identifica quem o escreveu ou qual entidade "independente" estaria por trás dele.
O que as evidências mostram
A prorrogação. A Lupa informa que as duas horas extras de votação foram determinadas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin, sorteado relator da ação. Com base em dados do TSE, afirma que apenas 34.393 votos foram registrados após as 17h, cerca de 0,027% do total. A vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro foi de 4,43 milhões de votos, de modo que esse número não altera o resultado. A alegação de 2,5 milhões de votos na prorrogação é, portanto, contradita pelos mesmos dados públicos que o documento cita.
O percentual de São Paulo. O TSE disse à Lupa que é impossível saber em quem votaram os eleitores que compareceram após as 17h. O arquivo CSV com os dados dos boletins de urna (BU), fonte que o documento diz usar, traz apenas o total de cada candidato no dia inteiro. Um número como 57,46% para as seções que fecharam mais tarde não sai desse arquivo.
Biometria. A Lupa explica que votar sem validação biométrica não é voto irregular. O eleitor precisa estar presente e apresentar documento oficial com foto, e o mesário só libera a urna se o ano de nascimento informado pelo eleitor bater com o cadastro. O TSE diz que o ano de nascimento não consta no caderno de votação, portanto o mesário não o tem à mão. A operação e a identificação de quem liberou o eleitor ficam registradas no log da urna e podem ser auditadas. Votar ou tentar votar no lugar de outra pessoa é crime, com pena de até três anos de reclusão pelo artigo 309 do Código Eleitoral. O TSE lembra ainda que o Registro Digital do Voto (RDV), adotado desde 2004, permite a recontagem sem quebrar o sigilo.
Seções rurais. O texto da Lupa a que tivemos acesso termina antes de tratar dessa alegação, então não a classificamos.
Como os veículos cobriram
A Agência Lupa, agência de checagem, faz a análise detalhada. Ela reproduz trechos do documento e responde a cada um com dados e explicações do TSE. Diz ainda que leitores enviaram o conteúdo para verificação por WhatsApp.
A TV Sim Brasil publicou manchete que chega à mesma conclusão: chama o relatório de falso e diz que ele usa dados do TSE para alegar fraude. Só tivemos acesso ao título, então não dá para dizer mais sobre a apuração do veículo.
Os dois veículos concordam no veredito. Não encontramos, neste conjunto, nenhum veículo que defenda o documento, e não vimos o documento em si, apenas os trechos citados pela Lupa.
O que ainda não sabemos
- Quem escreveu o documento e quem o espalhou primeiro.
- Como a Lupa avaliou a alegação sobre as seções rurais, já que o texto está cortado.
- Os detalhes da ação em que Zanin foi sorteado relator e determinou a prorrogação. O trecho da Lupa a menciona, mas não a descreve.
- Se houve pedido de auditoria ou recontagem oficial. Nenhuma das fontes cita isso.
O que as evidências disponíveis mostram é que os principais números do documento não batem com os dados públicos do TSE, e que suas alegações sobre a habilitação sem biometria ignoram as salvaguardas descritas pelo tribunal.
Fontes
- TradicionalRelatório falso usa dados do TSE para alegar fraude na eleição - TV Sim BrasilTV Sim BrasilChama o relatório de falso; só a manchete estava disponível
- ChecagemDocumento falso distorce dados do TSE para alegar fraude na eleição presidencial de 2026Agência LupaChecagem que rebate o documento com dados do TSE
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