Análise
Um documento intitulado "Relatório Pericial Independente" circula nas redes sociais com alegações de fraude no segundo turno da eleição presidencial. Ele não traz o nome de nenhum autor, e a imprensa o classificou como "apócrifo". Checadores e veículos tradicionais afirmam que o material distorce dados públicos da Justiça Eleitoral (TSE).
O que está sendo afirmado
Segundo o Estadão Verifica, o relatório diz analisar microdados do TSE e faz vários apontamentos:
- Flávio Bolsonaro (PL) teria vencido se fossem contadas só as urnas encerradas até as 17h.
- Os votos depois das 17h podem ser atribuídos a um único candidato.
- O número de cerca de 34 mil votos tardios divulgado pelo TSE seria falso.
- 8,6 milhões de eleitores teriam votado sem biometria, o que seria a "maior vulnerabilidade material" do processo.
- Os microdados só teriam sido divulgados 72 horas após a proclamação do resultado.
O documento foi compartilhado por apoiadores do senador Flávio Bolsonaro e pelo comentarista americano Joey Mannarino, simpatizante de Donald Trump, cuja publicação no Instagram teria passado de 400 mil curtidas.
O que as evidências mostram
A principal alegação não resiste à aritmética. Lula venceu com cerca de 64,2 milhões de votos contra 59,8 milhões, uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões. Apenas cerca de 34 mil votos foram registrados após as 17h: 32.399 entre 17h e 18h, 1.981 entre 18h e 19h e 13 depois das 19h. Mesmo que todos fossem para um só candidato, algo que ninguém tem como saber, o resultado não mudaria. Pesquisadores do Monitor do Debate Político, da USP, disseram ao Estadão que a maioria desses votos ocorreu nos primeiros dez minutos, o que combina com eleitores ainda na fila. Votar após o horário também não é novidade: 31.714 pessoas votaram depois do encerramento no segundo turno de 2022.
A tentativa do relatório de ligar os votos tardios a um candidato também esbarra no sigilo do voto. O TSE afirma que o Registro Digital do Voto guarda as escolhas sem vinculá-las à identidade dos eleitores.
Sobre a biometria, o TSE não confirmou o número de 8,6 milhões. O cadastro biométrico não é obrigatório, e cerca de 141,3 milhões dos 158,7 milhões de eleitores (89%) o tinham. Quando a digital não é reconhecida, vale um procedimento alternativo: o eleitor digita o ano de nascimento, assina o caderno de votação e o mesário que liberou o voto é identificado. Os arquivos divulgados não indicam em quem esses eleitores votaram.
A alegação das "72 horas" também é contrariada. A Justiça Eleitoral diz que os boletins de urna foram impressos e afixados nas seções e depois publicados na internet, e que o Registro Digital do Voto e o log das urnas estão disponíveis para consulta.
Uma ressalva: nossa base são principalmente as declarações da Justiça Eleitoral relatadas pelo Estadão Verifica, e não uma análise própria dos microdados.
Como os veículos cobriram
Quatro veículos trataram do caso. O Aos Fatos afirmou que o relatório "distorce" microdados do TSE para alegar fraude. O Estadão Verifica publicou a checagem detalhada, ponto a ponto. O Estadão e o Terra trazem o mesmo título, que chama a alegação de fraude de "falsa". Desses três, só tivemos acesso aos títulos, então não podemos descrever o conteúdo. Nenhuma das fontes fornecidas defende o relatório, e não há cobertura de veículos que o endossem além dos compartilhamentos em redes sociais descritos acima.
O que ainda não sabemos
- Quem escreveu o relatório. Nenhuma fonte identifica o autor.
- De onde vem o número de 8,6 milhões e se ele pode ser reproduzido com dados públicos. O TSE não o confirmou.
- Se analistas independentes vão publicar suas próprias análises dos microdados. O Estadão cita outros veículos e pesquisadores da USP chegando a conclusões parecidas, mas não vimos seus métodos completos.
- Até onde as alegações ainda vão se espalhar, dado o grande alcance das publicações compartilhadas.
Fontes
- ChecagemRelatório apócrifo distorce microdados do TSE para alegar fraude eleitoral - Aos FatosAos FatosChecagem: relatório distorce dados do TSE para alegar fraude
- Checagem‘Relatório pericial’ apócrifo distorce dados para alegar falsa fraude nas eleiçõesEstadão VerificaChecagem detalhada que rejeita cada alegação principal
- Tradicional‘Relatório pericial’ apócrifo distorce dados para alegar falsa fraude nas eleições - EstadãoEstadãoTrata a alegação de fraude como falsa
- Tradicional'Relatório pericial' apócrifo distorce dados para alegar falsa fraude nas eleições - TerraTerraTrata a alegação de fraude como falsa
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