CASO #0022 · ABERTO EM 5 DE NOV. · ATUALIZADO HÁ 7 H · ENCERRADO

'Relatório pericial' apócrifo que alega fraude no segundo turno é desmentido por dados da Justiça Eleitoral

Documento sem assinatura que viralizou diz que Flávio Bolsonaro teria vencido, mas checagens apontam distorção de microdados públicos do TSE e ignoram a diferença de 4,4 milhões de votos.

Quadro de evidências

  • FalsoFlávio Bolsonaro teria vencido o segundo turno considerando apenas as urnas encerradas até as 17h.4 / 4 fontes

    Segundo o Estadão Verifica, só cerca de 34 mil votos foram registrados no país após as 17h, enquanto Lula venceu por aproximadamente 4,4 milhões (64,2 milhões a 59,8 milhões). Os votos depois desse horário não alteram o resultado.

  • FalsoOs votos registrados após as 17h podem ser atribuídos a um candidato específico.1 / 4 fontes

    O sigilo do voto torna isso impossível: o Registro Digital do Voto armazena as escolhas sem vinculá-las à identidade dos eleitores, segundo o TSE citado pelo Estadão Verifica.

  • FalsoO dado do TSE de cerca de 34 mil votos após as 17h não seria verdadeiro.1 / 4 fontes

    O Estadão Verifica informa que o número vem de microdados públicos do TSE (34.393 votos após as 17h) e que diversos veículos chegaram a conclusões semelhantes. No segundo turno de 2022, 31.714 eleitores também votaram após o horário, já que quem está na fila tem direito de votar.

  • Sem evidências8,6 milhões de eleitores teriam votado sem identificação biométrica, o que seria a maior vulnerabilidade do processo.1 / 4 fontes

    O TSE não confirmou o número de 8,6 milhões. Mesmo assim, votar sem reconhecimento biométrico não é irregularidade: o cadastro não é obrigatório, 11% dos eleitores não o têm e existe um procedimento alternativo. Os arquivos não mostram em quem cada um desses eleitores votou.

  • FalsoOs microdados da eleição só teriam sido divulgados 72 horas após a proclamação do resultado.1 / 4 fontes

    Segundo a Justiça Eleitoral, os dados da votação eram públicos em tempo real, conforme os boletins de urna eram transmitidos e processados. Os boletins também foram afixados nas seções e publicados na internet após o fim da votação.

Análise

Um documento intitulado "Relatório Pericial Independente" circula nas redes sociais com alegações de fraude no segundo turno da eleição presidencial. Ele não traz o nome de nenhum autor, e a imprensa o classificou como "apócrifo". Checadores e veículos tradicionais afirmam que o material distorce dados públicos da Justiça Eleitoral (TSE).

O que está sendo afirmado

Segundo o Estadão Verifica, o relatório diz analisar microdados do TSE e faz vários apontamentos:

  • Flávio Bolsonaro (PL) teria vencido se fossem contadas só as urnas encerradas até as 17h.
  • Os votos depois das 17h podem ser atribuídos a um único candidato.
  • O número de cerca de 34 mil votos tardios divulgado pelo TSE seria falso.
  • 8,6 milhões de eleitores teriam votado sem biometria, o que seria a "maior vulnerabilidade material" do processo.
  • Os microdados só teriam sido divulgados 72 horas após a proclamação do resultado.

O documento foi compartilhado por apoiadores do senador Flávio Bolsonaro e pelo comentarista americano Joey Mannarino, simpatizante de Donald Trump, cuja publicação no Instagram teria passado de 400 mil curtidas.

O que as evidências mostram

A principal alegação não resiste à aritmética. Lula venceu com cerca de 64,2 milhões de votos contra 59,8 milhões, uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões. Apenas cerca de 34 mil votos foram registrados após as 17h: 32.399 entre 17h e 18h, 1.981 entre 18h e 19h e 13 depois das 19h. Mesmo que todos fossem para um só candidato, algo que ninguém tem como saber, o resultado não mudaria. Pesquisadores do Monitor do Debate Político, da USP, disseram ao Estadão que a maioria desses votos ocorreu nos primeiros dez minutos, o que combina com eleitores ainda na fila. Votar após o horário também não é novidade: 31.714 pessoas votaram depois do encerramento no segundo turno de 2022.

A tentativa do relatório de ligar os votos tardios a um candidato também esbarra no sigilo do voto. O TSE afirma que o Registro Digital do Voto guarda as escolhas sem vinculá-las à identidade dos eleitores.

Sobre a biometria, o TSE não confirmou o número de 8,6 milhões. O cadastro biométrico não é obrigatório, e cerca de 141,3 milhões dos 158,7 milhões de eleitores (89%) o tinham. Quando a digital não é reconhecida, vale um procedimento alternativo: o eleitor digita o ano de nascimento, assina o caderno de votação e o mesário que liberou o voto é identificado. Os arquivos divulgados não indicam em quem esses eleitores votaram.

A alegação das "72 horas" também é contrariada. A Justiça Eleitoral diz que os boletins de urna foram impressos e afixados nas seções e depois publicados na internet, e que o Registro Digital do Voto e o log das urnas estão disponíveis para consulta.

Uma ressalva: nossa base são principalmente as declarações da Justiça Eleitoral relatadas pelo Estadão Verifica, e não uma análise própria dos microdados.

Como os veículos cobriram

Quatro veículos trataram do caso. O Aos Fatos afirmou que o relatório "distorce" microdados do TSE para alegar fraude. O Estadão Verifica publicou a checagem detalhada, ponto a ponto. O Estadão e o Terra trazem o mesmo título, que chama a alegação de fraude de "falsa". Desses três, só tivemos acesso aos títulos, então não podemos descrever o conteúdo. Nenhuma das fontes fornecidas defende o relatório, e não há cobertura de veículos que o endossem além dos compartilhamentos em redes sociais descritos acima.

O que ainda não sabemos

  • Quem escreveu o relatório. Nenhuma fonte identifica o autor.
  • De onde vem o número de 8,6 milhões e se ele pode ser reproduzido com dados públicos. O TSE não o confirmou.
  • Se analistas independentes vão publicar suas próprias análises dos microdados. O Estadão cita outros veículos e pesquisadores da USP chegando a conclusões parecidas, mas não vimos seus métodos completos.
  • Até onde as alegações ainda vão se espalhar, dado o grande alcance das publicações compartilhadas.

Fontes

Comentários