CASO #0013 · ABERTO EM 2 DE NOV. · ATUALIZADO HÁ 3 DIAS · ENCERRADO

MKUltra: o programa de controle mental da CIA que de fato existiu

O núcleo da afirmação está documentado, inclusive os testes de LSD em americanos sem consentimento, mas o programa nunca produziu o controle mental que buscava, e muitos registros foram destruídos.

Quadro de evidências

  • VerdadeiroA CIA manteve um programa secreto (MKUltra, a partir de 1953) para encontrar drogas e técnicas de controle da mente humana.5 / 6 fontes

    A entrevista da NPR com o jornalista Stephen Kinzer, a Superinteressante e o resumo da Wikipedia sobre as conclusões do Congresso descrevem o programa, dirigido pelo químico Sidney Gottlieb. Ele foi revelado em 1975 pelo Comitê Church e pela Comissão Rockefeller. As fontes divergem sobre o fim: a NPR fala em início dos anos 1960, a Wikipedia em 1972.

  • VerdadeiroAlguns experimentos deram LSD e outras drogas a pessoas, inclusive americanos, sem o conhecimento ou consentimento delas.5 / 6 fontes

    A Wikipedia, citando o depoimento do vice-diretor da CIA ao Senado, diz que mais de 30 instituições participaram de testes de drogas em pessoas que não sabiam. Também descreve a Operação Midnight Climax e os projetos Third Chance e Derby Hat do Exército, com 16 sujeitos sem conhecimento. A reportagem de Kinzer e o caso de Frank Olson, cuja bebida foi batizada com LSD em 1953, apontam na mesma direção.

  • VerdadeiroOs métodos iam além do LSD e incluíam eletrochoque, hipnose, privação sensorial, isolamento e outras formas de abuso psicológico.3 / 6 fontes

    Kinzer, na NPR, descreve sujeitos sem conhecimento submetidos a tortura psicológica, do eletrochoque a altas doses de LSD. A Wikipedia lista hipnose, privação sensorial e isolamento, e descreve o trabalho de Donald Ewen Cameron em Montreal. A lista de métodos se apoia sobretudo no resumo da Wikipedia, e os registros que sobraram são incompletos.

  • VerdadeiroOs experimentos causaram danos graves, inclusive mortes.4 / 6 fontes

    Kinzer diz que o total de mortes é impossível de calcular, mas que algumas pessoas morreram e muitas vidas foram destruídas. A Superinteressante conta a morte do cientista da CIA Frank Olson, depois de ser drogado sem saber. O número exato é desconhecido. A Wikipedia em português menciona, numa referência a série de TV, a tese de que Olson foi assassinado, mas as fontes fornecidas não trazem prova disso.

  • Sem evidênciasO MKUltra conseguiu criar controle mental funcional, como agentes programados no estilo 'Candidato da Manchúria'.3 / 6 fontes

    Nenhuma das fontes fornecidas mostra que funcionou. Kinzer diz que o medo de que os comunistas dominassem o controle mental era muito exagerado e que o projeto avançou pouco além de apagar mentes. Ele acrescenta que Gottlieb concluiu que o controle mental não era possível. A Wikipedia diz que alguns historiadores veem a criação de um sujeito estilo Candidato da Manchúria como um dos objetivos, o que trata de intenção, não de resultado.

  • ContestadoA CIA destruiu a maior parte dos registros do MKUltra em 1973, e o programa pode ter continuado em segredo.3 / 6 fontes

    A ordem de destruição dada pelo diretor da CIA Richard Helms em 1973 é registrada nas duas versões da Wikipedia, e os investigadores dependeram de depoimentos e dos documentos que sobraram. A ideia de continuação secreta se baseia em entrevistas do ex-agente Victor Marchetti, resumidas na Wikipedia em português. É uma afirmação sem documentação nas fontes fornecidas. A Wikipedia documenta o programa sucessor MKSEARCH, que durou até 1971.

Análise

O MKUltra costuma ser jogado na prateleira das teorias da conspiração, mas seu núcleo é história documentada. Nos anos 1950, a CIA manteve um programa secreto para encontrar drogas e técnicas capazes de controlar o comportamento humano, e parte dos testes foi feita em pessoas que não sabiam que estavam sendo testadas. O difícil é separar o que está comprovado do que a cultura pop acrescentou: o programa existiu e foi abusivo, mas não há evidência de que tenha produzido o controle mental que buscava.

O que está sendo afirmado

A afirmação que circula tem várias partes. Primeiro, a CIA conduziu experimentos secretos de controle mental. Segundo, alguns sujeitos, inclusive americanos, não sabiam de nada. Terceiro, o LSD foi central, ao lado de outros métodos. Quarto, pessoas foram prejudicadas ou morreram. Uma extensão comum diz que o programa funcionou ou que continua em segredo.

O que as evidências mostram

A existência do programa e seus objetivos estão bem sustentados. Na entrevista da NPR com o jornalista Stephen Kinzer, o MKUltra aparece como um esforço da CIA, liderado pelo químico Sidney Gottlieb, para obter um soro da verdade, um amnésico e um jeito de levar agentes a agir e depois esquecer. Segundo o resumo da Wikipedia, ele começou em 1953 por ordem do diretor da CIA, Allen Dulles, e foi exposto em 1975 pelo Comitê Church e pela Comissão Rockefeller.

A afirmação sobre pessoas que não sabiam de nada também se sustenta. A Wikipedia relata o depoimento do vice-diretor da CIA ao Senado de que mais de 30 instituições participaram de testes de drogas em pessoas desavisadas. Descreve ainda a Operação Midnight Climax, em que homens eram drogados em casas seguras da CIA, e testes do Exército com 16 sujeitos sem conhecimento. A Superinteressante conta como Gottlieb batizou a bebida de colegas em 1953, entre eles Frank Olson, que morreu dias depois ao cair da janela de um hotel. A NPR traz o relato de Kinzer sobre sujeitos desavisados submetidos a tortura psicológica, do eletrochoque a altas doses de LSD. Kinzer diz que o custo humano total não pode ser medido: algumas pessoas morreram e muitas vidas foram arruinadas.

A ideia de que funcionou não tem respaldo. Kinzer chama de muito exagerado o medo de que os comunistas dominassem o controle mental, diz que o projeto avançou pouco na tentativa de inserir uma nova mente e conta que Gottlieb concluiu que o controle mental não era possível. A Wikipedia também registra que Gottlieb, depois, considerou todo o esforço inútil.

O registro é incompleto. As duas versões da Wikipedia informam que o diretor da CIA, Richard Helms, mandou destruir a maior parte dos arquivos em 1973, de modo que os investigadores trabalharam com depoimentos e documentos que sobraram. Um pedido via Lei de Acesso à Informação (FOIA) em 1977 revelou cerca de 20 mil documentos, segundo a Wikipedia. A tese de que o programa continuou em segredo se apoia em entrevistas do ex-agente Victor Marchetti, resumidas na Wikipedia em português. É uma afirmação, não algo demonstrado por documentos no material que analisamos.

Como os veículos cobriram

A NPR trata o MKUltra como história estabelecida, com base na pesquisa de Kinzer, e destaca tanto o abuso quanto o fracasso do programa. A Superinteressante, revista brasileira de divulgação científica, o apresenta como um programa ultrassecreto centrado em LSD e mescalina e usa a morte de Olson como fio condutor. As duas versões da Wikipedia são mais amplas. A em inglês é a mais detalhada em subprojetos e depoimentos. A em português se apoia mais em autores de viés militante e tem trechos sem fonte, como as afirmações de Marchetti e a seção de cultura pop, e deve ser lida com cautela. As páginas da sala de leitura da CIA citadas pela Wikipedia são links de arquivo. O texto que recebemos delas era uma página inicial genérica, por isso não nos baseamos nelas para detalhes.

O que ainda não sabemos

Por causa da destruição de arquivos em 1973, ninguém sabe dizer quantos subprojetos houve no total (a Wikipedia fala em mais de 150 financiados), quantas pessoas foram drogadas ou quantas morreram. A data de encerramento também varia conforme a fonte, do início dos anos 1960 a 1972. Se alguma atividade continuou depois disso não está estabelecido nas fontes que analisamos. A tese de que Olson foi assassinado, e não vítima da dose dada sem seu conhecimento, aparece só de passagem numa referência cultural e não tem evidência aqui.

Fontes

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