Análise
Um documento chamado “Relatório Pericial Independente” vem circulando nas redes sociais com a tese de que o segundo turno da eleição presidencial de 2026 foi fraudado. Sem autor identificado, o texto diz se basear nos microdados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Segundo o Estadão Verifica, o material foi compartilhado por apoiadores do senador Flávio Bolsonaro (PL) e pelo comentarista americano Joey Mannarino, simpatizante de Donald Trump, cuja publicação no Instagram passou de 400 mil curtidas. A Justiça Eleitoral desmentiu o relatório em nota na terça-feira, 28 de outubro, e duas agências de checagem, o Aos Fatos e o Estadão Verifica, concluíram que ele distorce dados públicos.
O que está sendo afirmado
O relatório reúne várias acusações:
- Flávio Bolsonaro teria vencido se só os votos dados até as 17h fossem contados.
- Os votos registrados depois das 17h teriam beneficiado um único candidato.
- O número do TSE, de cerca de 34 mil votos após as 17h, seria falso.
- 8,6 milhões de pessoas teriam votado sem identificação biométrica, o que o texto chama de “maior vulnerabilidade material” do processo de 2026.
- Os microdados só teriam sido liberados 72 horas após a proclamação do resultado.
- Votações unânimes em algumas seções indicariam manipulação.
O que as evidências mostram
Votos tardios. A análise do TSE citada pelo Estadão Verifica contabiliza 34.393 votos após as 17h: 32.399 entre 17h e 18h, 1.981 entre 18h e 19h e 13 depois das 19h. Lula venceu com 64,2 milhões de votos, contra 59,8 milhões de Flávio Bolsonaro — diferença de 4,4 milhões, mais de cem vezes o total de votos tardios. Pesquisadores do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da USP, disseram ao Estadão que a maioria desses votos ocorreu até as 17h10, o que bate com a presença de eleitores ainda na fila. A lei garante o voto a quem estiver aguardando no fechamento; no segundo turno de 2022, 31.714 pessoas votaram depois do horário.
O relatório também não tem como saber em quem votaram esses eleitores. O TSE explica que o Registro Digital do Voto guarda as escolhas “sem vinculá-las à identidade dos eleitores”. O Estadão Verifica acrescenta que Estadão, BBC, g1 e Folha chegaram a números parecidos com os do TSE a partir dos microdados abertos (não tivemos acesso direto a essas reportagens).
Biometria. O TSE não confirmou os 8,6 milhões, e o número segue sem verificação. Mas o cadastro biométrico não é obrigatório: 141,3 milhões dos 158,7 milhões de eleitores (89%) estão cadastrados, o que deixa cerca de 17,4 milhões de fora. Quando a digital não é reconhecida, entra um protocolo alternativo: o ano de nascimento do eleitor, que o mesário não vê, é digitado no terminal, o eleitor assina o caderno de votação e o mesário que liberou o voto fica identificado. O TSE lembra ainda que seus arquivos não revelam em quem votou quem foi liberado sem biometria.
Divulgação dos dados. A história das 72 horas não se sustenta. Segundo a Justiça Eleitoral, os boletins de urna foram impressos e afixados nas portas das seções após o encerramento e publicados na página Resultados do TSE conforme chegavam; o RDV e o log das urnas também são públicos.
Seções unânimes. O resumo do Estadão Verifica informa que o TSE classificou como normais as votações unânimes em algumas seções. A explicação detalhada não estava no trecho disponível para nós.
Como os veículos cobriram
As três fontes são brasileiras e tratam o relatório como desinformação. O Aos Fatos destacou no título que o documento apócrifo distorce microdados do TSE; só tivemos acesso ao título. O Estadão Verifica checou ponto a ponto, e a mesma matéria aparece também sob a marca principal do Estadão. Nenhuma das fontes defende o relatório ou ouve seus autores.
O que ainda não sabemos
Continua desconhecida a autoria do relatório. O número real de eleitores liberados sem biometria não foi confirmado pelo TSE. Também não tivemos acesso à checagem completa do Aos Fatos nem à explicação detalhada do TSE sobre as seções unânimes. Nenhuma das fontes menciona contestação formal do resultado baseada no documento.
Fontes
- ChecagemRelatório apócrifo distorce microdados do TSE para alegar fraude eleitoralAos FatosDesmente o relatório como distorção de dados do TSE (só o título)
- Checagem‘Relatório pericial’ apócrifo distorce dados para alegar falsa fraude nas eleiçõesEstadão VerificaChecagem ponto a ponto com base no TSE
- Tradicional‘Relatório pericial’ apócrifo distorce dados para alegar falsa fraude nas eleições - EstadãoEstadãoMesma checagem republicada; classifica a fraude como falsa
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