CASO #0008 · ABERTO EM 31 DE OUT. · ATUALIZADO HÁ 3 DIAS · ENCERRADO

'Relatório pericial' anônimo distorce dados públicos para alegar fraude no 2º turno de 2026

Espalhado por apoiadores de Flávio Bolsonaro e por um comentarista trumpista dos EUA, o documento diz que o segundo turno foi fraudado, mas a Justiça Eleitoral e duas agências de checagem mostram que as contas não fecham.

Quadro de evidências

  • FalsoFlávio Bolsonaro teria vencido o segundo turno se fossem contados apenas os votos registrados até as 17h.3 / 3 fontes

    Segundo a análise do TSE citada pelo Estadão Verifica, só 34.393 votos foram registrados após as 17h em todo o país, enquanto a vantagem de Lula foi de cerca de 4,4 milhões de votos (64,2 milhões contra 59,8 milhões). Os votos tardios não teriam como mudar o resultado.

  • FalsoOs votos dados depois das 17h podem ser atribuídos a um candidato específico.1 / 3 fontes

    O sigilo do voto impede isso: o TSE afirma que o Registro Digital do Voto (RDV) guarda as escolhas sem vinculá-las à identidade do eleitor, então não há como saber em quem votou quem chegou mais tarde.

  • FalsoO número do TSE, de cerca de 34 mil votos registrados após as 17h, não é verdadeiro.1 / 3 fontes

    O Estadão Verifica relata que vários veículos (Estadão, BBC, g1, Folha) chegaram a números parecidos usando os microdados públicos do TSE, e que algo semelhante (31.714 eleitores) ocorreu no segundo turno de 2022. A lei garante o voto a todos que já estão na fila.

  • Falso8,6 milhões de pessoas votaram sem identificação biométrica, a maior vulnerabilidade do processo de 2026.1 / 3 fontes

    O TSE não confirmou o número de 8,6 milhões, mas votar sem biometria não é irregularidade: o cadastro biométrico não é obrigatório (cerca de 17,4 milhões de eleitores não o têm) e existe um protocolo alternativo quando a digital falha. O TSE diz ainda que seus arquivos não mostram em quem votaram os eleitores liberados sem biometria. O número em si segue sem confirmação; o que é falso é tratá-lo como 'vulnerabilidade'.

  • FalsoOs microdados da eleição só foram divulgados 72 horas depois da proclamação do resultado.1 / 3 fontes

    Segundo a Justiça Eleitoral, os boletins de urna foram impressos e afixados nas portas das seções após o encerramento e publicados na página Resultados do TSE à medida que eram transmitidos; o RDV e o log das urnas também ficam disponíveis.

  • FalsoVotações unânimes em algumas seções indicam fraude.1 / 3 fontes

    O resumo do Estadão Verifica diz que o TSE esclareceu que votações unânimes em algumas seções são normais. A explicação detalhada não estava no trecho a que tivemos acesso.

Análise

Um documento chamado “Relatório Pericial Independente” vem circulando nas redes sociais com a tese de que o segundo turno da eleição presidencial de 2026 foi fraudado. Sem autor identificado, o texto diz se basear nos microdados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Segundo o Estadão Verifica, o material foi compartilhado por apoiadores do senador Flávio Bolsonaro (PL) e pelo comentarista americano Joey Mannarino, simpatizante de Donald Trump, cuja publicação no Instagram passou de 400 mil curtidas. A Justiça Eleitoral desmentiu o relatório em nota na terça-feira, 28 de outubro, e duas agências de checagem, o Aos Fatos e o Estadão Verifica, concluíram que ele distorce dados públicos.

O que está sendo afirmado

O relatório reúne várias acusações:

  • Flávio Bolsonaro teria vencido se só os votos dados até as 17h fossem contados.
  • Os votos registrados depois das 17h teriam beneficiado um único candidato.
  • O número do TSE, de cerca de 34 mil votos após as 17h, seria falso.
  • 8,6 milhões de pessoas teriam votado sem identificação biométrica, o que o texto chama de “maior vulnerabilidade material” do processo de 2026.
  • Os microdados só teriam sido liberados 72 horas após a proclamação do resultado.
  • Votações unânimes em algumas seções indicariam manipulação.

O que as evidências mostram

Votos tardios. A análise do TSE citada pelo Estadão Verifica contabiliza 34.393 votos após as 17h: 32.399 entre 17h e 18h, 1.981 entre 18h e 19h e 13 depois das 19h. Lula venceu com 64,2 milhões de votos, contra 59,8 milhões de Flávio Bolsonaro — diferença de 4,4 milhões, mais de cem vezes o total de votos tardios. Pesquisadores do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da USP, disseram ao Estadão que a maioria desses votos ocorreu até as 17h10, o que bate com a presença de eleitores ainda na fila. A lei garante o voto a quem estiver aguardando no fechamento; no segundo turno de 2022, 31.714 pessoas votaram depois do horário.

O relatório também não tem como saber em quem votaram esses eleitores. O TSE explica que o Registro Digital do Voto guarda as escolhas “sem vinculá-las à identidade dos eleitores”. O Estadão Verifica acrescenta que Estadão, BBC, g1 e Folha chegaram a números parecidos com os do TSE a partir dos microdados abertos (não tivemos acesso direto a essas reportagens).

Biometria. O TSE não confirmou os 8,6 milhões, e o número segue sem verificação. Mas o cadastro biométrico não é obrigatório: 141,3 milhões dos 158,7 milhões de eleitores (89%) estão cadastrados, o que deixa cerca de 17,4 milhões de fora. Quando a digital não é reconhecida, entra um protocolo alternativo: o ano de nascimento do eleitor, que o mesário não vê, é digitado no terminal, o eleitor assina o caderno de votação e o mesário que liberou o voto fica identificado. O TSE lembra ainda que seus arquivos não revelam em quem votou quem foi liberado sem biometria.

Divulgação dos dados. A história das 72 horas não se sustenta. Segundo a Justiça Eleitoral, os boletins de urna foram impressos e afixados nas portas das seções após o encerramento e publicados na página Resultados do TSE conforme chegavam; o RDV e o log das urnas também são públicos.

Seções unânimes. O resumo do Estadão Verifica informa que o TSE classificou como normais as votações unânimes em algumas seções. A explicação detalhada não estava no trecho disponível para nós.

Como os veículos cobriram

As três fontes são brasileiras e tratam o relatório como desinformação. O Aos Fatos destacou no título que o documento apócrifo distorce microdados do TSE; só tivemos acesso ao título. O Estadão Verifica checou ponto a ponto, e a mesma matéria aparece também sob a marca principal do Estadão. Nenhuma das fontes defende o relatório ou ouve seus autores.

O que ainda não sabemos

Continua desconhecida a autoria do relatório. O número real de eleitores liberados sem biometria não foi confirmado pelo TSE. Também não tivemos acesso à checagem completa do Aos Fatos nem à explicação detalhada do TSE sobre as seções unânimes. Nenhuma das fontes menciona contestação formal do resultado baseada no documento.

Fontes

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